
No Colégio Divina Providência, estudantes do Ensino Fundamental Anos Iniciais — que contempla crianças de aproximadamente 6 a 10 anos — vivenciaram a história e a cultura afro-brasileira por meio do projeto “Linguagens e Narrativas”, unindo literatura, arte, culinária e visitas a locais históricos do Rio de Janeiro.
Ensinar desde cedo é o que pode, de fato, transformar realidades e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, diminuindo desigualdades e fortalecendo o respeito à diversidade. Essa experiência, rica em protagonismo estudantil, reforçou o compromisso do colégio com uma educação que valoriza a identidade, a escuta e o pertencimento desde a base.
Aprender com o corpo, o coração e a mente
A proposta pedagógica do projeto “Linguagens e Narrativas” nasceu do desejo de aproximar os alunos das raízes afro-brasileiras de maneira sensível e significativa. Com inspiração na Lei 10.639, que tornou obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira no currículo escolar, o colégio trouxe essa abordagem para dentro das salas e corredores, trabalhando o conteúdo de forma interdisciplinar e vivencial.
Para quem ainda não conhece, a Lei 10.639/03 foi criada para garantir que os estudantes brasileiros conheçam a verdadeira contribuição dos povos africanos na formação do nosso país. Mais do que cumprir uma norma legal, o Divina transformou esse compromisso em ação concreta.
E antes mesmo de começar, uma pergunta instigou as crianças: “África é um país ou um continente?” Com curiosidade e espanto, muitos descobriram pela primeira vez que a África é um continente imenso, com mais de 50 países, culturas diversas, povos únicos e histórias incríveis. A partir daí, os estudantes embarcaram em uma jornada guiada por livros, músicas, sabores e pessoas. Entre os títulos trabalhados, estiveram obras como:
- “Quanta África tem no dia de alguém?”, de Daniel Munduruku, que mostra como hábitos cotidianos têm raízes africanas;
- “Diário de Pilar na África”, de Flávia Lins e Silva, uma narrativa lúdica e viajante;
- “A África recontada para crianças”, de José Bessa Freire e Heloisa Pires Lima, que valoriza os mitos e heróis africanos;
- “Gênios da nossa gente”, de Oswaldo Faustino, destacando personalidades negras marcantes;
- E “O que você pensa quando falo África?”, da autora Lavínia Rocha, que inspirou o tema gerador do projeto.
Essas histórias abriram portas para conversas sobre identidade, respeito e pertencimento.
Caminhos da memória: a África no Rio de Janeiro
Como parte do projeto “Linguagens e Narrativas”, os alunos vivenciaram uma experiência marcante: uma aula de campo pela Herança Africana, no Rio de Janeiro. Eles visitaram a região conhecida como Pequena África, no centro da cidade — um território de grande importância histórica e cultural. Lá, caminharam por locais que guardam a memória de resistência e ancestralidade dos povos africanos:
- Cais do Valongo: antigo porto de entrada de africanos escravizados, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO;
- Pedra do Sal: berço do samba e espaço de cultura afro-brasileira;
- Largo da Prainha: onde manifestações culturais e religiosas negras resistem até hoje;
- Instituto Pretos Novos (IPN): local que abriga os restos mortais de africanos escravizados, hoje um centro de memória e educação antirracista.
As crianças observaram e viveram a aprendizagem com os pés no chão e os olhos no passado. Entenderam que a história da África também é a história do Brasil, é a história de todos nós. “Mais do que aprender, foi um momento de ressignificar e compreender como essa herança segue viva, pulsante e presente em nossa identidade. Foi emocionante ver o quanto os alunos se envolveram nesse projeto”, reforçou a coordenadora dos Anos Iniciais, Joana Ferreira.
No colégio, as crianças trabalharam com diferentes linguagens e formas de expressão, o que tornou o aprendizado muito mais vivo. Escutaram, por exemplo, histórias reais contadas por funcionários da própria escola, que compartilharam suas origens e experiências. Esses relatos tocaram tanto os alunos que eles os apelidaram, com muito carinho, de “pérolas negras”.
Mas não parou por aí. Na culinária, exploraram ingredientes e sabores ligados à cultura afro-brasileira e compreenderam como a comida também carrega história. Na música, reconheceram os ritmos que fazem parte do nosso dia a dia. Nas artes, criaram com as mãos: pintaram, desenharam, deram vida a símbolos cheios de significado.
Educar com propósito
No Colégio Divina Providência, projetos como o “Linguagens e Narrativas” mostraram na prática o que é uma educação baseada em valores humanos que une o conhecimento ao coração, a história à vivência e a escola à comunidade.
Enquanto muitos ainda se perguntam como tratar de temas complexos com os pequenos, o Divina mostrou que é possível fazer isso com profundidade, sensibilidade e afeto. E essa também é uma escolha das famílias: valorizar uma escola que respeita, ensina e acolhe todas as histórias.